Investimento, RPPS

Como o Ruído Afeta os Investimentos dos RPPS

Entenda, de forma clara e prática, como este tema impacta a gestão eficiente do seu RPPS.

Ruído é a variabilidade nas decisões, mesmo com as mesmas informações. Nos RPPS, compromete a qualidade dos investimentos. Entenda seus impactos e como reduzir esse problema com governança eficiente.
Homem com expressão de incômodo, olhos fechados e mãos tapando os ouvidos, representando desconforto ou irritação.

No campo da gestão dos investimentos dos regimes próprios de previdência, muito se fala sobre rentabilidade, risco, alocação de ativos e conformidade com as normas legais. No entanto, um fator pouco discutido, mas altamente relevante, é o impacto do ruído — um tipo de erro invisível, muitas vezes ignorado, que pode comprometer a qualidade das decisões de investimento mesmo quando se segue um processo formal e regulamentado.

O conceito de ruído foi desenvolvido por Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia e autor da obra Ruído: Uma Falha no Julgamento Humano, escrita em parceria com Olivier Sibony e Cass R. Sunstein. Segundo os autores, ruído é a variabilidade indesejada e inconsistente nos julgamentos humanos, o oposto do viés, que é uma distorção sistemática. O ruído acontece quando diferentes pessoas — ou a mesma pessoa em momentos distintos — tomam decisões diferentes diante da mesma situação, mesmo que todas as informações relevantes estejam disponíveis.

No ambiente dos RPPS, essa falha de julgamento pode se manifestar de várias formas. Um exemplo clássico é quando há divergência significativa nas avaliações de risco de um mesmo fundo por profissionais distintos. Enquanto um gestor considera determinado fundo conservador, outro o classifica como moderado, mesmo com acesso às mesmas informações. Da mesma forma, a definição de qual percentual alocar em renda variável ou em ativos estruturados pode variar mais por sensações subjetivas do que por fundamentos objetivos, como o perfil atuarial do passivo ou as metas da política de investimentos.

Esse tipo de ruído é particularmente perigoso em regimes próprios, porque eles lidam com recursos públicos e têm a obrigação de atuar com base em critérios técnicos, previsibilidade e segurança. Quando o ruído se infiltra na governança, ele compromete a consistência das decisões ao longo do tempo e aumenta o risco de desenquadramentos, más alocações ou exposição desnecessária a ativos inadequados.

Além disso, o ruído prejudica a capacidade de avaliar o desempenho das decisões. Se as escolhas são tomadas com base em julgamentos inconsistentes, fica difícil saber se uma má rentabilidade decorreu do comportamento do mercado ou de uma decisão mal calibrada — e, pior ainda, torna-se difícil corrigir os erros de forma sistemática.

Para reduzir o ruído nos investimentos dos RPPS, é essencial avançar em três frentes principais:

1. Estruturação de processos decisórios padronizados. A criação de checklists objetivos, critérios de avaliação uniformes para fundos e ativos, e o uso sistemático de dados quantitativos ajudam a diminuir a influência de fatores subjetivos. Um comitê bem estruturado precisa mais do que experiência: precisa de métodos de análise replicáveis.

2. Fortalecimento da governança com foco em evidência. Decisões colegiadas devem ser acompanhadas de justificativas registradas e fundamentadas. A ata de uma reunião de comitê não deve apenas registrar a decisão, mas também os critérios utilizados — se basearam-se na política de investimentos, nas simulações de risco, nas exigências de liquidez do cálculo atuarial, entre outros fatores.

3. Uso de ferramentas de apoio à decisão. A adoção de modelos simples de pontuação de risco, rankings objetivos de fundos, ou mesmo simulações de cenário com base em métricas como Value at Risk (VaR), contribuem para padronizar avaliações e reduzir a dispersão de julgamentos causada por preferências individuais.

É importante destacar que o ruído não é fruto de má-fé nem de falta de conhecimento técnico, mas sim de um funcionamento natural da mente humana. Somos todos suscetíveis a influências que nem sempre percebemos: o contexto de uma reunião, o excesso de otimismo após uma boa performance de mercado, a pressão do gestor público por maior rentabilidade, entre outros. Por isso, reconhecer o ruído é o primeiro passo para construir uma gestão mais profissional, transparente e responsável.

Inspirado pelos alertas de Kahneman e seus colegas, refletir sobre o ruído na gestão dos RPPS significa elevar a qualidade das decisões de investimento, proteger os recursos previdenciários e aumentar a confiança da sociedade na administração pública. É um compromisso que deve começar com a formação contínua dos profissionais envolvidos, mas também com a implantação de estruturas institucionais que favoreçam decisões técnicas, previsíveis e justificáveis.

Sua opinião faz toda a diferença.

"Conhecimento é poder”, dizia Francis Bacon — e continua sendo. Para evoluir, é preciso aprender, questionar e aplicar. Só o conhecimento transforma intenção em ação, dúvida em clareza, e esforço em resultado. Quem busca crescer, precisa primeiro entender. E entender exige estudo, curiosidade e coragem para sair do lugar.

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Manoel Junior

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