Há livros que se leem com os olhos. Outros, com o cérebro. Mas alguns, como A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Taleb, nos atravessam de um jeito tão profundo que é o coração quem precisa digerir. Terminei a leitura com uma inquietação difícil de silenciar — e se tudo o que planejamos nos RPPS estiver sendo feito sob a ilusão de controle?
Taleb nos mostra que o mundo é regido não pelo previsível, mas pelo inesperado. E o mais perigoso: esses eventos raros, os chamados “cisnes negros”, não apenas são impossíveis de prever com precisão, como têm impacto brutal e transformador. São improváveis, sim. Mas não irrelevantes.
E aqui está a primeira conexão incômoda: os RPPS são estruturas que, por natureza, precisam de estabilidade, previsibilidade e controle. Mas o que ocorre quando a realidade econômica, política ou atuarial nos confronta com aquilo que não estava nos cenários projetados? Quando o cálculo atuarial feito com toda técnica e responsabilidade se vê desmontado por uma pandemia, uma quebra de mercado ou uma mudança legislativa abrupta?
A tirania do conhecimento retrospectivo
Uma das provocações mais fortes de Taleb é sobre o viés retrospectivo: nossa tendência de, após um evento extremo, acreditar que ele era previsível. Vemos isso com frequência na gestão previdenciária. Quando um fundo sofre perdas, é comum ouvirmos: “era óbvio que esse ativo estava arriscado”. Mas, sejamos honestos — não era. O problema é que confundimos conhecimento com controle. Achamos que porque dominamos os números, conseguimos domesticar o futuro. E isso é uma ilusão que custa caro.
A Política de Investimentos dos RPPS, com seus critérios técnicos, metas atuariais e alocação por segmento, é essencial. Mas não é uma fortaleza intransponível diante da incerteza radical. Talvez, depois de Taleb, devêssemos olhar para ela como um guarda-chuva em meio a um furacão — importante, mas incapaz de conter tudo.
A falácia da normalidade
Taleb também nos alerta para o perigo da “curva normal”, essa velha conhecida da estatística que assume que a maioria dos eventos se comporta dentro de uma média, com poucos desvios extremos. Ora, os RPPS muitas vezes projetam cenários com base nessa premissa. Mas e quando os ativos têm comportamento assimétrico? Quando uma pequena fração da carteira representa o risco de grandes perdas — ou ganhos? A história da previdência pública tem exemplos dos dois.
A resposta que se impõe é: precisamos aprender a conviver com a incerteza sem fingir que ela não existe. Incorporar margens de segurança, manter reservas de liquidez mais robustas, avaliar os riscos com humildade epistemológica — aquela consciência de que o que não sabemos é, muitas vezes, mais relevante do que aquilo que achamos que sabemos.
Robustez antifrágil: o caminho possível
E então Taleb propõe o conceito que mais me tocou: antifragilidade. O antifrágil não é apenas resistente ao caos — ele melhora com o caos. Transforma choques em alavancas de crescimento. E isso me fez pensar: como tornar os RPPS antifrágeis?
Talvez isso signifique construir carteiras que se beneficiem de assimetrias, que não apostem tudo em um único cenário. Signifique adotar políticas de investimentos que não sejam estáticas, mas que se reinventem diante do inesperado, sem perder de vista o passivo previdenciário. Signifique, sobretudo, reconhecer que não saber é também uma forma de sabedoria.
Para terminar, sem encerrar
Escrevo este artigo não como quem traz respostas, mas como quem faz perguntas. Taleb me tirou da zona de conforto — e talvez essa seja a maior utilidade de um livro assim. Ao olhar para os RPPS com os olhos da incerteza, não perdemos o rigor técnico, mas ganhamos uma nova lente: a da humildade diante do desconhecido.
O futuro que prometemos proteger aos servidores públicos exige mais do que gestão — exige coragem para lidar com o incerto. E se há algo que aprendi com o cisne negro é que a ignorância consciente é mais sábia que a certeza ilusória. Que sigamos, então, não para prever o improvável, mas para resistir a ele com inteligência, prudência e, por que não, um pouco de poesia.