Nos últimos anos, os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) têm estado no centro das discussões sobre equilíbrio fiscal e sustentabilidade da gestão pública. Congressos, seminários e cursos técnicos se multiplicam, voltados à qualificação de dirigentes, conselheiros e gestores. Esse movimento é positivo e necessário, mas há uma lacuna preocupante nesse cenário: a ausência de iniciativas sistemáticas de educação previdenciária voltadas aos servidores ativos, aposentados e pensionistas. São eles, afinal, a base que sustenta o sistema e que, no momento da inatividade, passa a depender exclusivamente dele para viver com dignidade.
O servidor público, ao longo de sua carreira, contribui compulsoriamente para o regime previdenciário, mas quando chega o momento da aposentadoria, muitas vezes se depara com um contracheque repleto de rubricas cujo significado lhe escapa. Integralidade, média, paridade, abono de permanência, contribuição do aposentado sobre o excedente – termos técnicos que deveriam ser familiares, mas que geram dúvidas e insegurança. A experiência prática mostra que a maioria dos aposentados não sabe se seu benefício foi calculado pela média ou pela última remuneração, se tem direito à paridade com os servidores ativos, como é feito o reajuste anual ou quais descontos são legítimos. Essa falta de compreensão não é um problema individual, mas uma fragilidade sistêmica que expõe o segurado a decisões equivocadas e, principalmente, a fraudes.
Um dos fenômenos mais preocupantes que acompanho em minha atuação como consultor de RPPS é o chamado endividamento silencioso dos aposentados. O crédito consignado, criado como uma modalidade acessível e com juros reduzidos, tornou-se uma porta para o comprometimento excessivo da renda. Dados recentes do governo federal indicam que mais de 4,1 milhões de beneficiários já foram ressarcidos por descontos indevidos em seus contracheques, totalizando mais de 2,8 bilhões de reais. São números alarmantes, que revelam não apenas a ação de criminosos, mas também a fragilidade de um sistema que permite a contratação de empréstimos sem o devido crivo do segurado. A chamada portabilidade com troco, por exemplo, tem sido utilizada por instituições financeiras como estratégia para renovar dívidas e estendê-las por prazos cada vez maiores, seduzindo o aposentado com a perspectiva de receber um valor imediato sem que ele perceba que está trocando um alívio momentâneo por um comprometimento de longo prazo que reduzirá seu poder de compra por anos.
Outro dado que merece atenção vem do Ministério dos Direitos Humanos: dos mais de 74 mil casos de violações patrimoniais registrados em 2024, mais de 43 mil atingiram pessoas com 60 anos ou mais. Os aposentados são, de longe, o grupo mais visado por golpistas, e as modalidades são inúmeras e se renovam a cada dia: golpe do benefício bloqueado, falsa central do INSS, mensagens de WhatsApp com links maliciosos, ofertas de investimentos milagrosos, falsos advogados prometendo precatórios. A criatividade dos criminosos parece não ter limites, e a falta de informação é o combustível que alimenta essas fraudes. O aposentado que conhece os canais oficiais de atendimento, que sabe que o INSS nunca liga pedindo dados, que desconfia de ofertas de lucro fácil, está muito mais protegido. E essa proteção só se constrói com informação.
Há ainda um inimigo silencioso, que não aparece em boletins de ocorrência, mas corrói dia após dia a qualidade de vida de quem depende da renda previdenciária: a inflação. Para quem tem benefício reajustado por índices oficiais como o IPCA, o poder de compra se mantém estável em tese, mas a realidade é mais complexa. A cesta de consumo do idoso tem peso maior em itens como saúde e medicamentos, que historicamente sobem acima da inflação geral. O resultado é uma perda gradual, quase imperceptível no curto prazo, mas devastadora ao longo de uma década. Simulações realistas mostram que, em dez anos, a diferença entre o poder de compra de quem tem paridade com ganhos reais e de quem é reajustado apenas pela inflação pode superar 20%. É uma defasagem que compromete a qualidade de vida, limita o lazer e, em casos extremos, afeta até o acesso a cuidados essenciais de saúde.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é o emocional. Decisões financeiras não são tomadas no vácuo; são influenciadas por medos, desejos, pressões familiares e pela história de vida de cada um. O medo de faltar dinheiro pode levar o aposentado a uma postura excessivamente restritiva, que compromete sua qualidade de vida no presente. O efeito “eu mereço”, por outro lado, pode justificar gastos impulsivos que desequilibram o orçamento. A pressão familiar por ajuda financeira coloca muitos diante de um dilema doloroso: ajudar quem se ama ou preservar a própria segurança. Compreender esses mecanismos é tão importante quanto dominar a técnica de organização de um orçamento. A educação financeira para aposentados precisa necessariamente incluir uma dimensão comportamental, sob pena de se tornar um conjunto de regras que ninguém consegue seguir.
Há ainda um tema que muitos preferem evitar: a própria morte. Falar sobre herança, testamento e partilha ainda é tabu em muitas famílias, e o resultado são conflitos que poderiam ser evitados, custas judiciais que consomem parte do patrimônio e mágoas que perduram por gerações. Um planejamento sucessório mínimo – que inclui organização documental, conversa franca com os herdeiros e, quando necessário, a elaboração de um testamento – é um dos maiores atos de cuidado que alguém pode ter com sua família. É garantir que, na dor da perda, não se somem as dores da burocracia e da discórdia.
É nesse contexto que as associações estaduais e regionais de RPPS assumem um protagonismo fundamental. Com sua capilaridade, sua história de mobilização e sua missão de atuar na formação e representação dos regimes próprios, essas entidades estão posicionadas de forma ímpar para liderar um movimento de educação previdenciária voltado à base do sistema. Não se trata apenas de ensinar a fazer contas, mas de empoderar o servidor para que compreenda seu próprio benefício, protegê-lo contra o endividamento predatório e os golpes, prepará-lo para uma aposentadoria digna com poder de compra preservado e ajudá-lo a planejar a transmissão de seu patrimônio com harmonia familiar. O fortalecimento dessas associações passa também pela ampliação de seu escopo de atuação, alcançando não apenas os gestores, mas todos os que dependem do sistema previdenciário. A educação previdenciária para servidores ativos, aposentados e pensionistas não é um extra ou um diferencial; é uma necessidade estrutural para a sustentabilidade dos RPPS e para a proteção social daqueles que dedicaram sua vida ao serviço público. Investir nessa formação é reduzir o risco de endividamento e suas consequências sociais, prevenir fraudes e litígios que sobrecarregam o sistema, fortalecer a cultura previdenciária como base para decisões mais conscientes e, acima de tudo, valorizar o servidor oferecendo-lhe ferramentas reais de autonomia. Ao abraçar essa causa, as associações não apenas cumprem sua missão institucional, mas também semeiam um futuro mais seguro para milhares de famílias. É um investimento cujo retorno não se mede apenas em números, mas em dignidade, tranquilidade e paz de espírito. E isso, meus caros, não tem preço.